Grutas no corredor Vale da Trave - Moitas Venda
5 de Julho de 2026

Rodrigues, Paulo 1,2,3 – enquadramentos e interpretação

Rodrigues, Afonso 1

 
  1. Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua General Pereira de Eça, nº30, 2380-075 Alcanena
  2. Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 
  3. Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187, 1500-124 Lisboa 
Email de correspondência: paulor2005@yahoo.com

Resumo

Este artigo analisa cavidades localizadas próximas do nível de aplanação Murteira – Carvalheiro, sito no Maciço Calcário Estremenho Português. Neste nível de aplanação o número de grutas de origem freática é considerável, testemunhando o papel deste corredor na paleocirculação. As cavidades analisadas são de dois tipos, vadose shaft, como os algares do Silvino Cego e da Cruz Catarino I, e grutas de origem freática, como os algares do Chocalho e do Chouso Frade. Os vadose shaft apresentam controlo estrutural por fraturas subverticais e as grutas de origem freática apresentam controlo misto por fraturas e atitude das camadas. As galerias do algar do Chouso Frade representam um antigo nível de circulação, também registado no próximo algar do Gralhas VII, a cotas 260-270m, o algar do Chocalho representa um outro antigo nível de circulação, mais baixo (próximo da cota 245-248m), resultante do rebaixamento do primeiro. De referir ainda a proximidade entre a cota da superfície de aplanação Murteira-Carvalhido na zona em estudo (cerca de 250m) com o paleonível de circulação inferior.

Palavras chave: Algar do Silvino Cego, Algar do Chouso Frade, Algar do Chocalho, Algar Cruz Catarino I, Planalto de Santo António, Nível de aplanação Murteira – Carvalheiro, espeleogénese, vadose shaft, paleonível de circulação, Maciço Calcário Estremenho.

Introdução

Após os trabalhos realizados no âmbito do projeto Corredor Moitas Vendas – Vale da Trave, que se iniciaram no seu extremo Este, (no Algar da Figueira, em Moitas Vendas) e se prolongaram para o Covão do Feto e zona do Marradinhas (com topografia de várias grutas das quais destacamos o Algar do Marradinhas II e o Algar do Zé do Braga), voltámos aos trabalhos neste corredor.

O projeto Corredor Moitas Vendas – Vale da Trave pretende reconhecer e topografar grutas no e em redor do nível de aplanação Murteira – Carvalheiro. A maior parte do corredor situa-se no bordo Sul do Planalto de Sto. António (Maciço Calcário Estremenho), prolongando-se para Oeste para a zona Sul do polge da Mendiga e para Este para o Vale da Trave.

Desta feita os trabalhos arrancaram no extremo Oeste do Corredor junto às localidades de Pé da Pedreira e Vale da Trave. As grutas alvo desta publicação são o algar do Silvino Cego, Algar do Chocalho, Algar da Figueira, ou das Sete Salas ou do Chouso Frade e o Algar da Cruz Catarino I.

Enquadramento geomorfológico

O nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro segundo G. Manupella et al (2006) é formada por erosão, sendo composto por uma faixa aplanada com 1 a 2 Km de largura, que se estende desde Casais da Mureta, Carvalheiro, Cortiçal e Vale da Trave até Murteira e Pé da Pedreira (ver Figura 1 e Figura 2) Este nível de erosão bisela os calcários do Jurássico Médio e Superior à altitude de referência de 250m, de acordo com G. Manupella et al (2006) após Martins (1949)). Segundo Martins(1949) a superfície de aplanação foi formada por erosão fluvial (uma vez que nela o autor não encontrou qualquer depósito marinho). Thomas (1983) refere a existência de um paleonível de base à cota 200m, marcado à superfície por um nível de aplanação com 2km de largura que se estenderia desde o Covão do Feto ao longo do flanco Sul do planalto de Sto. António, a cotas entre 150 e 230m.

De acordo com G. Manupella et al (2006), a cota desta plataforma encontra-se nos 200-220m no cabeço do Cheirinho, e Casais da Mureta, a Oeste de Murteira e Barreirinhas (ver Figura 1)sobe para 260 a 290m em direção a Valverde (nível de Chã das Pipas, Martins (1949)). O nível de aplanação sobe de Este para Oeste até atingir o fundo da depressão da Mendiga (a cotas de 330m). Segundo G. Manupella et al (2006), após Ferreira et al (1988), não existe descontinuidade evidente entre o nível de Murteira-Carvalheiro e os níveis de fundo da depressão da Mendiga. Segundo os autores anteriores, após Martins (1949) e Ferreira (1988), a ligação entre o fundo da depressão da Mendiga e a superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro é feita através de um estreito corredor aplanado, delimitado pelos relevos orientais da Serra da Lua e pela escarpa da falha da Mendiga. Segundo G. Manupella et al (2006), a superfície de erosão apresenta-se bastante inclinada para o interior do maciço (Murteira) ou com o aspeto de caleira ampla (Vale da Trave, Carvalheiro), ver Figura 2. Segundo os autores anteriores a superfície está amplamente carsificada com grande número de dolinas e pequenos troços de vales cegos, e a diferença entre a superfície de referência e o fundo das dolinas atinge cerca de 30 metros.

Figura 1 – Excerto da folha 328 da carta Militar de Portugal com a marcação tentativa, da zona central e Oeste do nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro. O nível de Murteira-Carvalheiro está delineado a azul. O círculo vermelho marca a localização aproximada da entrada do Algar das Gralhas VII.

Já Martins (1949) considera não uma, mas duas superfícies distintas: o nível de Chã das Pipas, a cotas de 280-290m, de idade ante-pliocénica, e um outro nível entre a Murteira e Carvalheiro a 240-250m, já do Pliocénico. Os níveis estariam separados por um estreitamento da plataforma a Norte do Vale da Mata (onde se encontra a nascente do Olho da Mata) e por uns cabeços cuja cota ronda os 250m, estando cerca de 10m mais altos que a superfície a Este e Oeste.

Segundo G. Manupella et al (2006) o limite Sul da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro apresenta-se bordejado por uma linha de pequenas elevações que limita o Maciço e antecede a descida para o sinclinal de Monsanto. De acordo com G. Manupella et al (2006), Martins (1949) considerava a depressão de Vale da Trave-Vale Florido como um polge incipiente. Embora dificilmente se possa atualmente considerar a zona Oeste da superfície com uma depressão, como Ferreira (1988) considera a depressão de Vale da Trave – Cabeço Florido parte da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro, não é de excluir que a depressão de Vale da Trave – Cabeço Florido se prolongasse para a zona Oeste da superfície, tendo sido limitada a Sul, por uma linha de elevações, atualmente já muito erodida, ou que sempre teve pouca expressão morfológica. Assim, a superfície de aplanação poderia corresponder a uma depressão cársica, com contorno pouco marcada a Oeste, com uma extensão de alguns quilómetros e que bordejava o limite SW do MCE.

A Norte da plataforma encontra-se o Algar do Gralhas VII, com três galerias que marcam um paleonível de circulação, que atualmente se encontra aos 270-280m. Os poços existentes em algumas galerias denunciam um rebaixamento do nível de água em mais de 50m, situando-se assim o novo nível de água a cotas inferiores a 230-240m.

Figura 2 – Mapa Geomorfológico do Maciço Calcário Estremenho (Ferreira, 1988). O nível de Murteira – Carvalheiro está assinalado com a simbologia 20 da legenda da figura.
Figura 3 – Excerto da Folha 328 – Alcanena da Carta Militar de Portugal, à escala 1/25000 com localização das cavidades referidas.

Enquadramento geológico

As cavidades desenvolvem-se de acordo com a Folha 27-C – Torres Novas – da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, nas formações de Calcários mícriticos da Serra de Aire e na Formação dos Calcários de Pé da Pedreira (Figura 2). Estas formações estão datadas do Batoniano (andar do Jurássico médio); a litologia dominante, segundo Manuppella et al (2006) são os calcários. A espessura da formação de Calcários mícriticos da Serra de Aire, segundo Manuppella et al (2000) chega, noutras zona do MCE, a ser da ordem dos 300-400m. A espessura da formação de Calcários de Pé da Pedreira, segundo Manuppella et al (1999) é estimada em 40m. Estas formações estão inseridas na chamada formação cársica do Jurássico Médio definida por Crispim (1995).

Em termos estruturais, os terrenos da zona em estudo apresentam regionalmente direção E-W com suave inclinação para Sul, que localmente chega a ser impercetível, considerando-se as camadas subhorizontais. De referir, porém, que os terrenos nesta área se apresentam cortados por falhas de importância regional, junto das quais se encontram deformações das camadas, a que acrescem dobras associadas ao polge da Mendiga e ao cavalgamento que limita o Sul do MCE, o Arrife.

Figura 4 – Excerto da Folha 27-C – Torres Vedras da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, com localização das cavidades referidas.

Enquadramento hidrogeológico

A hidrogeologia do MCE continua a ser, atualmente, pouco conhecida. Cada uma das unidades geomorfológicas possui um número muito limitado de nascentes permanentes para onde escoa as suas águas subterrâneas. De acordo com Costa Almeida et al (2000), a nascente mais importante da unidade onde se situam as grutas alvo deste estudo (Planalto de Santo António) é a nascente permanente do Rio Alviela.

De acordo com Costa Almeida et al (2000) a área de alimentação desta nascente deverá ser constituída pela quase totalidade do planalto, que apresenta declive geral para sul, o qual coincide igualmente com o pendor das camadas calcárias. As numerosas falhas que são paralelas à falha da Costa de Minde apresentam-se frequentemente injetadas por filões de rochas básicas que deverão funcionar como barreiras hidráulicas, totais ou parciais, que tenderão a impedir o escoamento para sul e a desviá-lo no sentido da nascente dos Olhos de Água. O remanescente dessa circulação mais meridional é drenada por várias nascentes situadas no bordo sul, perto do contacto com os terrenos menos permeáveis.

Algar do Silvino Cego ou Algar do Rochio

Resenha histórica
A gruta já era conhecida antes da realização deste trabalho. Existe referência à mesma em dois relatórios da Société Spéléo-Archéologique de Caussade (SSAC, 2005).

Descrição da cavidade
A gruta tem sobretudo desenvolvimento vertical, com uma entrada de largura métrica e acessível. Ainda perto da superfície, encontra-se um muro de pedra, resultado de um laborioso trabalho, que supomos tenha servido para armazenar as pedras situadas dentro da zona da entrada do algar. Passando o nicho onde se fraciona, entra-se num poço (P43) de diâmetro largo (cerca de 4-5m), direto e coberto de concreção. Veem-se os estratos subhorizontais e caneluras de dissolução. Da base do mesmo parte uma passagem estreita, devido a um depósito de concreção. Passando-a emboca-se em dois ressaltos que atravessam salas menores. No fundo encontra-se uma camada espessa de argila, e ao lado, num poço paralelo que se acede trepando e destrepando uma fenda, uma prateleira (já em parte abatida) de argila coberta com uma fina folha de calcite, marcando esta o nível do colmatação anterior. Além disso, vê-se um belo osso concrecionado no meandro final. As águas que se infiltram prosseguem por este fundo, existem outras pequenas janelas e fendas, mas todas demasiado estreitas e sem corrente de ar. No último ressalto surge couve-flor, mas a natureza ainda vertical e em zig-zag das passagens indiciam génese vadosa.

Acesso
Valverde, junto a uma estrada de terra, que dá acesso a uma pedreira próxima, a uns 10 metros no interior do mato.

Speleometry
Desenvolvimento Total: 97m
Desenvolvimento Planimétrico: 33m
Desnível: -75m

Ficha de equipagem
A ficha de equipagem pode ser encontrada na topografia (Figura 5).
Descida do poço maior (P12+P43): Corda 70m, 1 AN corrimão, 2 S descida, 1 AN desviador, 2 S ou 2 PB descida (devendo-se montar corrimão ao interior do nicho para pessoas se abrigarem, usando uma corda 10m e 2 PB + 1 S), 1 AN desviador.
Ressaltos finais: Corda 20m, 2 S descida, Protetor, 1 AN desviador.
(AN-Amarração Natural; S-Spit; PB-Parabolt)

Figura 5 – Topografia do Algar do Silvino Cego (clique para ver em formato pdf).
Figura 6 – Aspeto do P43, note-se as caneluras. (Foto: Afonso Rodrigues - GEM)
Figura 7 – Aspeto da zona terminal do P43, note-se a planta em zig-zag. (Foto: Rui Franco - GEM)
Figura 8 – Aspeto das camadas no interior da gruta. (Foto: Afonso Rodrigues - GEM)
Figura 9 – Concreção suspensa na zona terminal da cavidade. (Foto: Afonso Rodrigues - GEM)

Alguns apontamentos de geologia

O algar do Silvino Cego é um “vadose shaft” conforme definição de Baron (2003), como o comprovam: i) a existência de caneluras, ao longo do comprimentos dos poços; ii) O controlo estrutural dos poços por fraturas N60W/Subvertical (P12- Poço de entrada), N-S/ Subvertical ?(P43), N50E/ Subvertical,  N-S/ Subvertical (ligação P43 a P12 final) e E-W/ Subvertical (P12 final); iii) o teto dos poços geralmente planos, coincidindo com superfícies de estratificação subhorizontais; iv) o fundo do poço P43 está completamente coberto por blocos resultantes do abatimento do teto e iv) a entrada da gruta é das zonas mais estreitas.

Algar do Chocalho

Resenha histórica
Desconhece-se o histórico da exploração do algar. A cavidade situa-se no interior da localidade de Pé da Pedreira, com um acesso relativamente fácil, pelo que será  certamente conhecida há muito tempo. A gruta apresenta sinais de visitação e encontra-se equipada para repartidores.

Descrição da cavidade
A cavidade tem uma entrada de largura métrica, descendo-se à primeira sala por uma série de pequenos ressaltos com paredes e teto cobertos de cúpulas, de génese freática. A sala é extensamente concrecionada e tem o fundo atapetado de blocos e algum lixo, sendo estruturalmente controlada por fraturas subverticais. A sala desenvolve-se para SE, percorrendo-se um caos de blocos após o qual há uma cascalheira ascendente que termina numa pequena sala. Informam os locais que, em tempos, via-se luz ao fundo de uma chaminé nesta zona. A quantidade de blocos da rampa, assim como as caneluras de dissolução visíveis nesta zona, sugerem a existência de uma antiga entrada em poço, atualmente colmatada/concrecionada.

A cavidade continua por um segundo tramo vertical, que atinge uma galeria fóssil, correspondente à zona mais baixa. A galeria aparece como uma série de salas ligadas por passagens mais estreitas, seguindo uma direção clara e constante para WSW. Esta é razoavelmente concrecionada, estando colmatada em boa parte por um depósito de argila escura. Tanto as paredes como o teto estão cobertas de cinzas, indicação que a galeria  esteve preenchida com água após um incêndio. No topo das várias salas aparecem longas chaminés associadas a fraturas subverticais, além de marmitas de teto. A progressão faz-se superando pequenos degraus que se superam mais facilmente com entreajuda. Passando uma sala particularmente concrecionada e ultrapassando-se duas pequenas restrições atinge-se o término conhecido da cavidade.

Acesso
O algar abre-se num campo de dolinas, num carvalhal a poucos minutos da estrada.

Speleometry
Desenvolvimento Total: 194m
Desenvolvimento Planimétrico: 167m
Desnível: -34m

Alguns apontamentos de geologia
O poço de entrada é controlado por fratura de atitude N40E/Subvertical, com a galeria superior a ser controlado por fratura de atitude N60E/Subvertical. O poço de entrada, pode tratar-se de um pequeno vadose shaft, conforme definição de Baroñ (2003), porém já muito concrecionado e alterado, a possível segunda entrada, a julgar pelas caneluras de dissolução deveria ser também um outro vadose shaft.

O poço que dá acesso à galeria inferior é controlado por uma fratura de atitude N20E/Subvertical. A galeria inferior não apresenta controlo estrutural evidente, admite-se controlo por atitude das camadas (medida nesta galeria como E-W/10S), pois a direção geral de desenvolvimento é grosseiramente próxima de E-W, com alguns troços pouco desenvolvidos de direção N-S. A galeria é de origem freática, como testemunhado pelas cúpulas, aspeto arredondado das paredes e presença de vagas de erosão. As vagas de erosão apresentam um comprimento de cerca de 0.5m, sem sentido de circulação claro. A galeria inferior encontra-se parcialmente colmatada com concreções e argila, marcando um antigo nível de circulação de água, que se encontra atualmente à cota 245-248m. Esta galeria apresenta um perfil bastante nivelado (embora alterado pela colmatação), compatível com um paelonível de circulação estável.

Figura 10 – Poço de entrada (Foto: Catarina Teixeira - GEM)
Figura 11 – Topografia do Algar do Chocalho. O Norte da topografia é o geográfico (clique para ver em formato pdf).
Figura 12 – Aspeto da galeria superior (Foto Catarina Teixeira - GEM)
Figura 13 – Aspeto do nível de cinzas na galeria inferior (Foto: Catarina Teixeira - GEM)
Figura 14 – Teto da galeria superior, note-se o controlo estrutural por fracturas (Foto: Catarina Teixeira - GEM)
Figura 15 – Aspeto galeria inferior (Foto: Catarina Teixeira - GEM)

Algar do Chouso Frade, Chouse Frade, da Figueira ou das Sete Salas

Resenha histórica
Este algar é outro com evidentes sinais de visitação histórica e constante ao longo dos anos. Como habitual a inexistência de topografias publicadas, relatórios, artigos ou outro tipo de publicação espeleológica torna difícil reconstituir o histórico de exploração.

Do que se conseguiu apurar, o registo mais antigo é uma reportagem da RTP, de 1971 que acompanha uma atividade do CNJE –(Centro Nacional Juvenil de Espeleologia) a uma cavidade com o mesmo nome. Apesar do exterior da gruta estar diferente atualmente, a presença de inscrições com “RTP” no interior da gruta, indicam tratar-se da mesma cavidade. O vídeo dessa reportagem pode ser encontrado aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/sabe-o-que-e-o-c-n-j-e/. De notar que no vídeo podemos encontrar alguns espeleólogos clássicos da espeleologia portuguesa ainda na sua juventude. Vale bem a pena ver o vídeo.

Ainda foi possível apurar visitas do Centros de Estudos e Atividades Especiais da Liga de Proteção da Natureza (LPN CEAE), do Núcleo de Atividades Espeleológicas (NAE) e do Núcleo de Espeleologia de Leira (NEL). Agradecemos a Fernando Pires a identificação da sigla NAE:  Núcleo de Espeleologia de Condeixa.

Descrição da cavidade
A entrada está numa depressão, embocando numa pequena vertical de cerca 10m. Uma acumulação enorme de ossadas e lixo imediatamente é visível logo abaixo da boca, formando uma rampa de matéria orgânica que desce em direção a Este. Nesse sentido, a passagem é larga e alongada verticalmente, tendo as paredes concrecionadas. Veem-se depósitos de areia, e mantos calcíticos suspensos a marcar a sua antiga extensão. Sobre a concreção, existem extensas colónias de bactérias verdes

Daqui, a progressão faz-se por uma série de passagens mais estreitas e pequenas trepadas que ligam uma sucessão de pequenas salas, bem concrecionadas e com algumas inscrições feitas a gasómetro nas paredes. A sala mais distal ainda apresenta espeleotemas relativamente limpos e um gour bem conservado. O acesso faz-se por uma restrição mais difícil que as anteriores. Da última sala partem duas pequenas passagens descendentes com terminação em estreitamentos com preenchimento sedimentar

Depois da vertical de entrada existe uma continuação para Oeste, que se inicia numa pequena rampa de blocos (e ossos) dando acesso a uma sala. O seu término é uma galeria cujo teto estará muitíssimo próximo da superfície, notando-se inclusive a presença de organismos raramente associados ao meio subterrâneo, como formigas e lesmas, além de abundantes raízes pendentes. Esta zona da galeria parece assentar sobre um caos de blocos coberto de sedimento mais fino. Existe ainda uma passagem descendente que termina em estreiteza impraticável, carecendo de desobstrução.

Acesso
O algar abre-se num campo de dolinas, num carvalhal a poucos minutos da estrada.

Speleometry
Desenvolvimento Total: 144m
Desenvolvimento Planimétrico:119m
Desnível: -28m

Equipagem
A ficha de equipagem pode ser encontrada na topografia.
1 AN aproximação, 1 AN descida, protetor de corda, 1 S + 1 PB descida, 1 PB descida, 1 AN descida, 1 AN descida.
(AN-Amarração Natural; S-Spit; PB-Parabolt)

Alguns apontamentos de geologia
A gruta apresenta controlo estrutural por fraturas de atitude N60-70E/Subvertical, E-W/Subvertical e N10E/ Subvertical. As camadas apresentam atitude, medida na gruta, E-W/10S. A gruta tem origem freática como testemunhado pelo aspeto arredondado das paredes, presença de vagas de erosão e perfil em zig-zag. As vagas de erosão apresentam um comprimento de cerca de 0.5-0.6m, sem sentido de circulação bem definido. A galeria marca um antigo nível de circulação de água, que se encontra atualmente à cota 260-270m.

O perfil original do algar do Chouso Frade, embora alterado por abatimentos, parece ser em loop, podendo ter tido originalmente um perfil descendente, em direção ao vale próximo ao Algar do Chocalho, mimetizando a atual superfície topográfica (quiçá não muito diferente da antiga).

O depósito de areias que se encontra próximo da zona mais profunda da cavidade é particularmente interessante. A sua origem poderá estar relacionada com antiga circulação de água ou enchimento com areia externa à cavidade (apesar da sua localização ainda distante da entrada não favorecer esta hipótese). O depósito de areia encontra-se coberto por concreção, fazendo lembrar os existentes noutras grutas como o Algar dos Ursos e o Algar da Malhada de Dentro.

Figura 16 – Topografia do algar da Figueira ou Chouso Frade ou das Sete Salas. O Norte da topografia é o geográfico (clique para ver em formato pdf).
Figura 17 – Aspeto de uma das salas.
Figura 18 – Uma tentativa de passagem para a sala mais distal.

Algar da Cruz Catarino I

Resenha histórica
O algar era antes deste trabalho já conhecido anteriormente, constava Do Cadastro Nacional de Cavidades da FPE. A sua história da exploração é desconhecida

Descrição da cavidade
A gruta é composta por um único poço, com 19m de profundidade. que termina num caos de blocos completamente coberto por lixo, sobretudo embalagens plásticas e algum orgânico, dando um aspeto pouco salubre à cavidade. A boca do algar tem 3-4m de extensão e a aproximação tem de se fazer com algum cuidado. O calcário das paredes encontra-se alterado para uma argila.

Acesso
A cavidade situa-se a meia dúzia de metros a Sul de um estradão que passa ao lado de uma das pedreiras existente nessa zona. Apesar da proximidade ao estradão a vegetação impede a sua visualização.

Speleometry
Desenvolvimento Total: 24.1m
Desenvolvimento Planimétrico: 7.1m
Desnível: -19.6m

Ficha de equipagem
A ficha de equipagem pode ser encontrada na topografia.  Levar um roçador.

Alguns apontamentos de geologia
O algar da Cruz Catarino I é um vadose shaft conforme definição de Baroñ (2003), como o comprovam: i) a existência de caneluras, ao longo do comprimentos do poço; ii) o controlo estrutural do poço por fratura de atitude N20E/Subvertical. A cavidade encontra-se num estado de desenvolvimento adiantado, com abatimento da parte superior da gruta, o que explica a entrada larga, caos de blocos na base e a alteração das paredes. As camadas (atitude medida dentro da gruta) encontram-se subhorizontais.

Figura 19 – Topografia do Algar da Cruz Catarino (clique para ver em formato pdf).
Figura 20 – Boca do poço (Foto: Rui Franco - GEM)
Figura 21 – Aspeto do poço a partir da base (Foto: Rui Franco - GEM)
Figura 22 – Aspeto da base do poço (Foto: Rui Franco - GEM)
Figura 23 – Aspeto alterado das concreções e paredes do poço (Foto: Rui Franco - GEM)

Conclusions

As cavidades referidas neste artigo são de dois tipos, vadose shafts, caso dos algares do Silvino Cego e Cruz Catarino I e de grutas de origem freática, casos dos algares do Chocalho e do Chouso Frade. Os vadose shaft apresentam controlo estrutural por fraturas subverticais, com o Algar da Cruz Catarino I a apresentar-se num estádio de evolução mais avançado que o Algar do Silvino Cego. As grutas de origem freática apresentam controlo misto por fraturas e atitude das camadas.

No nível de aplanação Murteira – Carvalheiro, o número de grutas de origem freática é bastante considerável, comparativamente com outras áreas do Planalto de Sto António, nomeadamente nos sector dos Alecrineiros onde quase são só conhecidos vadose shafts. A existência deste número de grutas de origem freática testemunha o papel deste corredor em paleocirculações.

A cota das galerias do Algar do Chouso Frade (260-270m), que marcam um antigo nível de circulação é mais elevada do que a da galeria inferior do Algar do Chocalho (245-248m), que marca um outro nível de circulação. Dada a proximidade das grutas não se pode excluir uma ligação entre estes dois paleoníveis.

A cerca de 15km a NW da localização deste dois algares encontra-se o algar do Gralhas VII, que apresenta um paleonível de circulação, a cotas atuais de 270-280m com evidências de um rebaixamento do nível de água em mais de 50m, para cotas inferiores a 230-240m. Estas cotas são semelhantes às dos paleoníveis nos algares do Chocalho e do Chouso Frade. O antigo nível de circulação, reconhecido no algar do Chouso Frade, poderá assim representar uma passagem do mesmo paleonível, também registado no algar do Gralhas VII a cotas 260-270m, para um nível mais baixo (próximo da cota  245-248m) registado no Chocalho. De referir ainda a proximidade entre a cota da superfície de aplanação Murteira-Carvalhido na zona em estudo (cerca de 250m), com o paleonível de circulação inferior.

Agradecimentos

A António Afonso pela localização de cavidades. A Filipe Alves, pela localização de cavidades e portas que nos abriu e a todos os que participaram neste projeto

Participantes

Afonso Rodrigues, Bruno Silva, Catarina Teixeira, Dayara Jesus,  Duarte Antão, Elisabete das Neves, Fernando Batista, Filipe Alves,  Filipe Castro, Florbela Silva,  Pedro Cardoso, Manuel Lopes, Matthew Wire, Maria João Branco, Maria João Ramos, Marta Borges, Paulo Lopes, Nicolas Beffre, Raquel Lavado, Raquel, Rui Franco, Sandra Lopes, Vasco Lopes, Vítor Nunes.

Bibliografia

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