Algares do Cabeço dos Alecrineiros - Parte V


Ribeiro, José 1,2; Lopes, Samuel 1,4; Rodrigues, Paulo 1,2,3​​
14 de Fevereiro de 2017
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  1. Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal  
  2. Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 
  3. Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187,  1500-124 Lisboa
  4. Wind-CAM - Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução
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De novo nos Alecrineiros, para mais um capítulo deste nosso trabalho. Escolhemos desta feita uma zona mais a Sudoeste do cabeço, onde se situa um belo vale que percorre toda a zona a Sul dos Alecrineiros.

A equipa trabalhou em 2 algares, que apesar de serem próximos, (distam cerca de 100 metros um do outro), são bastante distintos.
Estes são o algar da Pegada, do qual agradecemos ao C.E.A.E.-LPN (Centro de Estudos e Atividades Especiais da Liga para a Proteção da Natureza) a partilha das coordenadas, e o algar das Pérolas identificado no cadastro de São Bento.


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Figura 1 – Vale a sul dos Alecrineiros (Foto: Valentina Correia - WIND)    

Algar da Pegada
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Um pouco de história:

O algar da Pegada foi descoberto pelo C.E.A.E. em 2003, tendo sido indicado por um habitante local, que ali perto passava de trator com a sua senhora, dizendo ao mesmo tempo que com ela ralhava:

- Acolá, ao pé daquele eucalipto, está um algar, sigam o carreiro, ele está entre as pedras, coberto de vegetação, cautela que ele é muito fundo!!!

Figura 2 – Entrada do Algar da Pegada (assinalada pela seta). Note-se o lapiáz em mesa.
(Foto: Valentina Correia - WIND)    
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Tendo sido as coordenadas recolhidas nesse dia, mais tarde explorado e identificado como um algar com desnível de 35 metros, terminando num caos de blocos no seu fundo. Foi identificada uma pequena fenda, mas sendo os meios na altura bastante artesanais, a sua desobstrução mostrou-se uma tarefa demasiado “hercúlea”. Entretanto o tempo foi passando, o C.E.A.E. envolveu-se em vários projetos, partilhando agora a coordenada no âmbito do nosso projeto.

Descrição:

A boca do algar é pequena, cerca de 50 cm. A secção do poço alarga à medida que a profundidade aumenta, até aos -35/40 m. Os poços são bastante “instáveis”, com grandes blocos suspensos.

Após a zona desobstruída, o algar volta a estreitar. Em muitas zonas da cavidade existem formas de reconstrução de parede, fruto das escorrências, e em alguns recantos, estalagmites e estalactites, poucas.

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Figura 3 – Enquadramento dos algares da Pegada e das Pérolas  
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Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcários micríticos de Serra de Aire. Esta formação está datada do andar Batoniano do Jurássico Médio. A formação é composta, como o próprio nome indica, por calcários, tendo uma espessura local próxima dos 100m, segundo Manuppella et al, 2000.

O algar desenvolve-se ao longo de uma família de fraturas de direção Oeste/Este e inclinação sub-vertical. O algar é um vadose shaft, como o comprovam a pequena entrada, o controlo estrutural por fraturas, e o seu término em fendas impenetráveis devido a perda de capacidade de corrosão da água.

Presente:

Após a 1ª saída, de exploração do algar em que verificámos as possibilidades, seguiu-se a estabilização do poço de entrada onde existiam bastantes blocos “perigosos”, que muito trabalho nos deram.

Seguiu-se a desobstrução, o algar “respirava”. Identificada a pequena fissura, por ali procuramos outra possibilidade que nos desse acesso ao desconhecido e, por debaixo do caos de blocos da zona mais larga do algar, fomos “felizes”. Ali fomo-nos entretendo, alargando a passagem para que fosse possível alcançar o desconhecido. Cansados mas muito felizes. Um pequeno passo para muitos, mas para nós um grande momento.

Após esta pequena passagem a labuta continuou. O poço que se seguiu também necessitou de estabilização. Continuámos então com esperança, e de facto estávamos agora por debaixo da zona da fissura e o algar continuava, mas começava a estreitar bastante.

Fomos retirando os muitos blocos que impediam o acesso à zona mais funda e também mais estreita. Ali, conseguimos descer uns bons metros mas, para nossa tristeza, a fratura fecha demasiado, sendo impossível a nossa progressão, e deixou de se sentir aquele ar fresco que nos fez acreditar.

Bom, a grande maioria das vezes é mesmo o que acontece. Siga. Aumentámos a profundidade do algar em cerca de 20 metros, e é mais um que fica cadastrado, topografado e partilhado!
    
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Figura 4a – Planta do Algar da Pegada ( veja aqui em PDF )
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Figura 4b – Perfil do Algar da Pegada ( veja aqui em PDF )

Figura 4c – Pormenor da sobreposição de Poços e Diaclases
 ( veja aqui em PDF )
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Figura 4d – Ficha de Equipagem do Algar da Pegada
( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar da Pegada por Samuel Lopes
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Algar das Pérolas    
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Um pouco de história:

Corria o ano de 2003, quando numa atividade de prospeção do C.E.A.E. - LPN, esse grande espeleólogo Sérgio Orantes, se embrenhou num grande silvado situado num lapiáz muito bonito e fundo, descobrindo assim o Algar das Pérolas. O algar foi explorado na altura onde se fez a desobstrução que deu acesso à segunda sala e às salas agora conhecidas, destacando claro a sala das Pérolas.

Mais tarde, em 2006, numa atividade conjunta de GPS (Grupo Proteção Sicó) / NEC (Núcleo de Espeleologia de Condeixa) / AESDA (Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente), fizeram-se duas desobstruções já na zona de meandro da cavidade.

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Figura 5 – Entrada do Algar das Pérolas (Foto: Samuel Lopes - GEM/WIND)
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Figura 6 – Localização da boca do Algar das Pérolas (Note-se a posição da entrada no fundo de um vale cego)
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Descrição:

A boca do algar é estreita com cerca de 1m. Abre-se num megalapiáz de fendas profundas, situado na base de um término de um vale cego de direção aproximada NE-SW que drena a vertente Sudoeste do cabeço dos Alecrineiros.
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Após a entrada segue-se uma pequena sala que dá acesso a outro poço, e a uma outra sala onde existem várias formas de reconstrução, sendo estas já bastante fósseis. A partir de aqui a progressão é feita em destrepe até a uma pequena sala, ficando esta em paredes meias com a sala das pérolas, zona com muitas e variadas formas de reconstrução de grande beleza.

A partir da sala das pérolas entra-se num meandro, que se encontra em grande parte colmatado com sedimentos argilosos. O meandro prolonga-se por cerca de 30m, e na sua parte final estreita tornando-se impossível a progressão.
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Figura 7 – Pérolas de gruta, que dão o nome ao algar (Foto: Samuel Lopes - GEM/WIND)

Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcários micríticos de Serra de Aire. Esta formação está datada do andar Batoniano do Jurássico Médio. A formação é composta, como o próprio nome indica, por calcários, tendo uma espessura local próxima dos 100m, segundo Manuppella et al, 2000.

A parte inicial do algar aparenta desenvolver-se ao longo de duas famílias de fraturas de inclinação sub-vertical, uma de direção NW-SE e outra E-O, até se atingir a sala das Pérolas. A partir desta zona entra-se no meandro, que é um troço de coletor em que o diâmetro baixa consoante o seu desenvolvimento. Este troço ter-se-á formado em regime freático, ao contrário da parte inicial da gruta que se terá formado em regime vadoso. Podemos pôr a hipótese da zona da entrada da gruta ter uma origem diferente da zona do meandro. O meandro pode ser classificado como uma galeria paragenética, visto estar muito colmatada com sedimentos argilosos, e sendo visível um sobrescavamento no teto. O meandro é o que resta de um troço de um antigo coletor, cuja cota rondaria os 450m. A presença deste coletor, poderá não ser estranho o vale cego que termina na boca do algar, e que poderá no passado ter fornecido água ao coletor, eventualmente num regime semelhante a carso suspenso.
Presente:

Tem-nos dado um prazer enorme explorar e perceber as aventuras que aqui foram vividas. Observando as desobstruções já ali efetuadas, acreditamos que poderíamos ir mais além. Colocámos mãos à obra e, escavando na parte final do meandro, avançámos cerca de 10m até chegarmos a uma zona em que o meandro estreita demasiado, impedindo assim a continuação da desobstrução.

Terminámos assim o nosso trabalho nesta cavidade, ficando mais um algar cadastrado, topografado e agora partilhado.    

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Figura 8a – Planta do Algar das Pérolas ( veja aqui em PDF )
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Figura 8b – Perfil do Algar das Pérolas ( veja aqui em PDF )
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Figura 8c – Ficha de Equipagem do Algar das Pérolas ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar das Pérolas por Samuel Lopes
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