Algares do Cabeço dos Alecrineiros - Parte VII


Ribeiro, José 1,2; Lopes, Samuel 1,4; Rodrigues, Paulo 1,2,3​​
11 de Maio de 2017
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  1. Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal  
  2. Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 
  3. Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187,  1500-124 Lisboa
  4. Wind-CAM - Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução
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A Primavera está ai, dias radiosos com os Alecrineiros cheios de vida. De facto aqui ainda sentimos que estamos dentro do Parque Natural, até já fomos presenteados com um belo faisão macho, que só voou ao sentir a nossa proximidade, e que belas cores transportou consigo, achamos até que foi um indicador de boa sorte. Mas a sorte procura-se e só se encontra com muito trabalho, fruto das varias prospeções que temos feito para encontrarmos mais algares. Uns mais trabalhosos que outros, é bem verdade. Vamos variando nas nossas explorações para que consigamos periodicamente publicar os nossos trabalho.

Partilhamos nesta publicação os algares Escondido, Alecrineiros 4 e 2 Bocas (Alecrineiros).    


Algar Escondido
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Foi a excitação assim que encontrámos o algar Escondido, um pequeno buraco ali bem disfarçado à espera de ser descoberto.

Aquilo é que foi. Quais mineiros, começámos um pouco depois a desobstrução que nos deu algum trabalho, mas estas coisas são mesmo assim. Depois de aberto e a exploração iniciada ouviu-se a palavra chave:

-Eh pá isto continua!!!!

O algar tem de facto algum desenvolvimento e uma possibilidade de continuação, e o seu nome deve-se ao facto de estar mesmo escondido.​
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Figura 1 - Algar Escondido na altura da descoberta
(Foto: Pedro Almeida - GEM)
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Descrição:
A boca do algar é pequena e não chega a ter meio metro de diâmetro. Segue-se um pequeno poço de 4m, alargado na sua base,  zona de muita argila e vários blocos, por nós retirados. Tem-se acesso a uma pequena rampa de acentuada inclinação, permitindo chegar a uma pequena sala (se assim o podemos chamar), onde está a cabeceira de um poço de 7m. Abre-se uma diáclase no sentido NO-SE, a sua base é uma cascalheira com calhaus de várias dimensões e alguma argila, com inclinação descendente no sentido SE. Aqui o algar tem a sua zona de maior dimensão, atingindo 2m de largura por 6m de altura.

No topo da rampa da diaclase a NO, subindo uma rampa de argila com acentuada inclinação tem-se acesso a uma pequena sala, com muita argila e cascalheira, tendo poucas formas de reconstrução.

Já a SE, no final da rampa encontra-se um pequeno poço de 3m, em forma de "tubo", o qual dá ligação à continuação da diaclase, mas agora com dimensões muito reduzidas.

No seu final, também no sentido NO-SE, deslumbra-se a continuação da diaclase mas muito estreita, tanto em profundidade como horizontalmente. Não se deteta nenhuma passagem de ar que seja significativa.
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Figura 2 - Algar Escondido, após desobstrução e inicio da exploração​ (Foto: Sandra Lopes - GEM)
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Geologia:

O algar Escondido desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire, datada do Batoniano (Jurássico Médio). A gruta aparenta ser um “vadose shaft”.
O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta aparenta ser feito por descontinuidades de duas famílias de atitude aproximada NW-SE/subvertical e NE-SW/subvertical.
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Figura 3 - Enquadramento dos algares Escondido, 2 Bocas (Alecrineiros) e Alecrineiros 4 (P20)    
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Presente:
É sempre um prazer, explorar e alcançar pela primeira vez o desconhecido, aquele momento em que se deslumbra mais uma passagem e a curiosidade do que vira a seguir, foi assim a exploração do algar escondido. De momento demos por terminado ali o nosso trabalho. Existe a possibilidade de após desobstrução (identificada na topografia), se torne humanamente possível o acesso a novo tramo, mas como em tudo na vida há prioridades e pensamos que a partilha serve também para esse fim, o trabalho foi iniciado e partilhado, pois quem assim o entender pode continuar. A cavidade não é nossa propriedade.
Porém para nossa proteção e da própria cavidade temos de obrigatoriamente ter formação antes de praticar espeleologia.

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Figura 4a – Planta do Algar Escondido ( veja aqui em PDF )
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Figura 4b – Perfil do Algar Escondido ( veja aqui em PDF )
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Figura 4c – Ficha de Equipagem do Algar Escondido ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar Escondido por Rui Andrade
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Fotos do Algar Escondido por Pedro Almeida
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Fotos do Algar Escondido por Sandra Lopes


Algar Alecrineiros 4
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Este algar foi inicialmente explorado pelos nossos colegas franceses do SSAC (Societe Spéleo Archéologique de Caussade), que sempre que nos visitam partilham o seu trabalho para conhecimento de todos e para que estes possam ter continuidade. É este o caminho!!!

Bom, o Alecrineiros 4 é identificado no relatório do SSAC (Expedition Planalto 2008) como P20. Chamou-nos a atenção o ponto de interrogação com ligeira corrente de ar no perfil do croqui de exploração efetuado na altura pelos nossos amigos. E claro, no âmbito do nosso projeto, cabe a melhoria dos dados existentes da cavidade.    

Descrição:
Entra-se no algar por uma fenda, que se desenvolve no sentido N-S, segue-se um patamar que não é mais que um bloco de grandes dimensões, ali entalado. Aí encontramos duas passagens: uma a Norte e outra mais larga a Este. Nesta tem-se acesso a um P17,  sendo a cabeceira aproximadamente de 1,50m de diâmetro, mas no seu desenvolvimento alarga bastante, pois existe a cerca de 3m da sua base uma fresta a Este com boas possibilidades de continuação (assinalada na topografia).
A base deste poço é um caos de blocos, mas a progressão segue por uma fenda no sentido Oeste que nos dá acesso a uma diáclase no mesmo sentido, forrada de formas de reconstrução parietais.
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Figura 5 - Entrada do algar Alecrineiros 4
(Foto: Samuel Lopes - GEM/WIND)    
​​​​​​​​​​Nessa zona, por debaixo de uma chaminé de 4m, abre-se um pouco a diáclase e acede-se a um poço de 5m de onde se sente fresco, estando também na topografia assinalada a possibilidade de progressão após desobstrução. No final da diáclase, no sentido NO-SE, abre-se um pequeno meandro que dá acesso a uma pequena sala, se assim o podemos chamar, em que as paredes estão todas cobertas de formas de reconstrução parietais. Verifica-se ai uma chaminé de 7m e tem-se acesso a um poço de 6m, terminando ai a progressão.

Geologia:
O algar Alecrineiros 4 desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000, na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire, datada do Batoniano (Jurássico Médio). A gruta aparenta ser um “vadose shaft”. O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta aparenta ser feito por descontinuidades de duas famílias de atitude aproximada NNW-SSE/Vertical e E-W/Vertical.    

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Presente:
Tem-nos dado muito trabalho este algar, inicialmente tivemos necessidade de alargar a entrada, pois apenas cabiam os espeleólogos mais "ligeiros". De seguida a estabilização do patamar seguinte, onde tivemos de retirar muito calhau instável visto que por debaixo está um P17.

Na base do P17 alargou-se um pouco mais a fenda que dá acesso a progressão, pensamos inclusive que esta fenda tenha já sido alargada pelos companheiros do SSAC. Na diáclase que se segue, no poço ali existente verifica-se de facto a possibilidade de continuação numa fresta ali existente e sente-se o ar fresco, talvez noutra ocasião se aposte nessa desobstrução. Fizemos sim uma desobstrução no pequeno meandro que nos deu acesso a nova e bonita sala que, infelizmente, após o poço termina.

É assim, o trabalho avança e é mais um que fica registado e partilhado!!!

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Figura 6a – Planta do Algar Alecrineiros 4 ( veja aqui em PDF )
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Figura 6c – Ficha de Equipagem do Algar Alecrineiros 4
( veja aqui em PDF )
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Figura 6b – Perfil do Algar Alecrineiros 4 ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar Alecrineiros 4 por Samuel Lopes


Algar das 2 Bocas (Alecrineiros)
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Certamente este algar já deverá ter sido explorado por quase todos os grupos de espeleologia, é de fácil acesso e bem visível, sendo a sua exploração também muito simples.
Mas constatámos que não existia a sua identificação nos cadastros de São Bento e no da F.P.E., e por isso cá fica registado e cadastrado.

​Descrição:
Este pequeno algar abre-se à superfície, na sua maior entrada, numa fenda de orientação N-S, acedendo-se ai a um poço de cerca de 3m, a sua base é composta por cascalheira, barro e lixo.

No sentido Norte, destrepa-se um pouco e tem-se acesso a uma pequena sala em cujo tecto se encontra a segunda abertura, e na sua base existe alguns blocos e argila. Termina ai a sua continuação.
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Figura 7 - Entrada do Algar das 2 Bocas (Foto: Sandra Lopes - GEM)     
​​​​​Na zona mais a Sul do pequeno algar, encontra-se uma pequena abertura dando a sensação de um oco, assinalado na topografia, mas sem qualquer passagem de ar.    

​Geologia:
O algar das 2 Bocas desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire, datada do Batoniano (Jurássico Médio). A gruta aparenta ser um “vadose shaft". O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta aparenta ser feito por descontinuidades de uma família com atitude aproximada N-S/Vertical.
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Presente:
Mesmo pequenos, estes algares dão sempre algum trabalho, vimos de facto a probabilidade de após desobstrução ele seguir um pouco mais para Sul. Mas de momento outros trabalhos nos ocupam, ficou no entanto topografado e cadastrado, mais um!!!!
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Figura 8a – Planta do Algar das 2 Bocas ( veja aqui em PDF )
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Figura 8b – Perfil do Algar das 2 Bocas ( veja aqui em PDF )
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Figura 8c – Ficha de Equipagem do Algar das 2 Bocas ( veja aqui em PDF )
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Fotos do Algar das 2 Bocas por Vítor Amendoeira
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Fotos do Algar das 2 Bocas por Sandra Lopes
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E já está, mais uma publicação, a 7ª, e mais virão certamente, pois neste preciso momento estamos a viver grandes aventuras e a desbravar o desconhecido.

Mas ai estão mais 3 algares cadastrados, topografados e partilhados, A OBRA AVANÇA...
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